quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Intervenção urbana e a (des)ordem do discurso


Por Andhressa Barboza

A proposta de intervenção urbana surgiu ao curso da disciplina Tópicos Especiais em Poéticas Contemporâneas II, do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea da UFMT, ministrada pela professora Maria Thereza Azevedo. A partir de discussões em sala e visitas in loco, realizamos a intervenção no dia cinco de julho de 2013 e a situação foi dividida em dois ambientes: primeiro visitamos o local de reunião do chamado “Senadinho”, o segundo foi a Praça da República, ambos no centro de Cuiabá. O “Senadinho” trata de um grupo de senhores que fizeram parte da Administração Pública e hoje estão aposentados. Eles se reúnem diariamente para discutir temas relacionados á conjuntura sócio-politico-econômica local e nacional. Contudo, nesse texto vamos nos ater à segunda situação, a da Praça da República.

A intervenção recebeu o nome de “República do Cochilo”, pois em visita prévia foi constatado que aquele espaço é procurado por trabalhadores da vizinhança para o descanso no horário do almoço.

A Praça da República é próxima de outra praça, a Praça Alencastro que fica em frente ao Palácio Alencastro, sede da Prefeitura de Cuiabá. Apesar da proximidade física, as praças apresentam diferenças quanto às atividades desenvolvidas. A Alencastro é o local onde comumente são realizadas as feiras para campanhas informativas voltadas às políticas públicas de saúde, educação e outras atividades sempre relacionadas à “cidadania”. Já a Praça da República é o local onde ficam pessoas em situação de rua.

Durante as sete horas que ficamos na Praça da República, foi possível conhecer alguns desses sujeitos sociais. O que busco desenvolver como reflexão deste trabalho tem como dados primários a experiência neste campo e como dados secundários algumas falas de colegas de turma após a intervenção.

A seguir está transcrita a fala de uma colega que conta sobre um rapaz que veio conversar com ela:

Pensei: não vou dar muita corda porque ele vai ficar mala, mas prestava atenção em tudo que ele falava. Esse moço que fala um monte de coisa que a gente está considerando bobagem, tipo “Ahhh, que chato”, talvez ele seja o único que tenha alguma razão para falar naquele ambiente, porque nós, ali estávamos fazendo arte e ele estava vivendo. A maioria das pessoas tem dificuldade de lidar com pessoas nessas situações.

Pela fala da colega percebemos como intervenção deu voz a discursos considerados não autorizados. Segundo Foucault (2007), a produção de discurso nas sociedades é controlada, selecionada, organizada e redistribuída de acordo com procedimentos que tem por função conspirar a favor de poderes e perigos. 

Nem todos os discursos podem ser socializados, para isso existem os mecanismos de exclusão, que são três: a palavra proibida, a segregação da loucura e a vontade de verdade. O primeiro são os tabus, as determinações das circunstâncias, o direito privilegiado ou exclusivo à fala. O segundo é uma separação, uma rejeição, pois o louco é aquele cujo discurso não pode circular como o dos outros. O último apoia-se em um suporte institucional que é reforçado e reconduzido por um conjunto de práticas.

Quando falamos dos sujeitos sociais em situação de rua na Praça da República estamos falando de discursos rejeitados o que reforça a delimitação de espaços sociais dos quais ocupam. O controle sobre os discursos se relaciona ao espaço social enquanto espaço simbólico ou de classe social. Segundo Bourdieu (1996) o espaço social é construído de tal modo que os agentes ou os grupos são aí distribuídos em função de sua posição nas distribuições estatísticas de acordo com os dois princípios de diferenciação: o capital econômico e o capital cultural.

Ali na Praça nós, estudantes universitários, exercíamos com a nossa presença dois tipos de violência simbólica, mesmo sem a intenção de exercer: a violência simbólica pelo nosso capital econômico e o capital cultural que constituem um habitus.

Os habitus são princípios geradores de práticas distintas e distintivas que são também esquemas classificatórios. Eles estabelecem as diferenças entre o que é bom e o que mau, entre o que é distinto e o que é vulgar, mas elas não são as mesmas. A ideia principal é que existir em um espaço, ser um agente social é diferir, ser diferente.

Assim, a intervenção na Praça da República provocou uma “desordem” discursiva e estética. Uma vez que deu voz aqueles cujos discursos são rejeitados e se o mundo social, com suas divisões, é algo que os agentes sociais têm a construir, coletivamente, na cooperação e no conflito, essas construções não se dão no vazio, elas surgem de situação e de processos. A distribuição ocupada no espaço social, isto é, na estrutura de distribuição de diferentes tipos de capital, podem ser vistas como armas, pois comandam as representações desse espaço e as tomadas de posição nas lutas para conservá-lo ou transformá-lo.

É o que Foucault (2007) chama de “vontade de verdade”. O autor aponta que esta vontade é uma construção histórica e está apoiada sobre um suporte institucional que tende a exercer uma pressão, um poder de coerção sobre os outros discursos. Apesar da “vontade de verdade” estar sempre se reforçando, tornando-se mais profunda e mais incontornável é dela que menos se fala é como se ela estivesse mascarada. Podemos colocar a “vontade de verdade” dentro do arcabouço dos valores éticos da sociedade.


Referências

BOURDIEU, Pierre. Razões Práticas: sobre a teoria da ação social. Campinas: Papirus. 1996.

FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola. 2007.



A intervenção urbana e a descoberta de um novo olhar: relatos das intervenções - senadinho e república do cochilo.



Jone Luiz C. da Costa.


            A intervenção ocorreu em dois locais distintos, o primeiro no “senadinho” que funciona em uma garagem, próximo à prefeitura de Cuiabá, onde ocorre uma reunião de senhores que outrora ocuparam cargos importantes na cidade e que se reúnem diariamente pela manhã para discutirem assuntos diversos. O segundo ocorreu na Praça da República onde foi criada a “república do cochilo”, o que se deu por volta do meio-dia. Em outro momento, ainda na praça, foi estendido um varal no qual seriam colocados cartazes escritos pelos participantes com mensagens que gostariam que se tornassem reais e semelhantemente foi disposta uma bacia com água onde seriam colocados cartazes com mensagens que as pessoas gostariam que não acontecessem.
            Ao me reunir com o grupo da intervenção na praça Alencastro pela manhã, afim de preparar e dar inicio à primeira intervenção, percebi coisas que outrora não me chamavam a atenção, as coisas e pessoas que antes se apresentavam como um pano de fundo, agora estavam em primeiro plano –  era a imagem de um homem dormindo sentado, de um grupo de jovens logo cedo já reunidos, alguns senhores conversando com muita intimidade, um veículo todo enfeitado que encontrava-se estacionado próximo, e essa percepção diferenciada não terminou ali. 

Foto1: local de encontro marcado, para dar inicio às intervenções.

Iniciando a intervenção, o deslocamento até ao senadinho, o que se deu com todos utilizando "sombrinhas", gerou uma imagem profunda que até hoje me faz refletir e, melhor que isso, foi bom perceber que pessoas que observavam esse deslocamento foram indagados, em seu interior, a refletirem sobre as práticas políticas e sociais em que vivem – neste momento nossos objetivos começaram a ser realizados, semelhante às práticas desenvolvidas pelos situacionistas. 
            REY aborda o assunto dos deslocamentos e em especial a caminhada e seus efeitos provocados nos territórios e nas pessoas envolvidas.
Do nomadismo primitivo das Rochas de Carnac ao Dada, depois do Surrealismo à Land Art, a caminhada e o trajeto são tomados enquanto experiência profunda, capaz de operar simbolicamente tanto nos territórios quanto no imaginário e na subjetividade dos indivíduos. REY, 2010, p.110)

            As percepções durante a intervenção no senadinho continuaram diferentes tanto para os que participavam quanto aos que observavam o acontecimento. Não me aprofundarei nesta intervenção, me atentarei ao acontecimento realizado na praça da república, a intervenção república do cochilo.
            Ao instalarmos as redes e colchões no local, propondo aos que se encontravam ou passavam pela praça um momento de descanso, alguns referenciais mudaram, o que na caminhada se percebera estando em movimento, neste momento se inverteu, o ponto de observação se tornou de certa forma fixo e o ambiente é que se encontrava em um movimento de mudança, o que ocorria pelo fluxo de pessoas que passavam ou utilizavam o local. Rey relata sobre mudanças que acontecem relacionados ao espaço-tempo do objeto observado.

(...) A experiência promovida pelos deslocamentos nas paisagens, e apresentada enquanto memória nos arquivos de deslocamentos, parece levantar problemáticas próprias das relações de espaço-tempo. Em seguida, esse modo operatório, que multiplica os dados do real em uma série de combinações possíveis e não cessa de fazer com que a imagem se dobre sobre si mesma nos desDOBRAmentos da paisagem,acaba por transformar a percepção dos fragmentos das paisagens em um espaço sem topos, não localizável, mas aberto ao acontecimento.( REY, 2010, p.110)

            Observando o que se passava, inúmeras possibilidades do que poderia acontecer passava em minha imaginação. Em um dado momento, quando eu estava instalando uma rede, uma adolescente que se encontrava próximo me disse: “Você vai armar pra eu deitar?”, respondi que sim, e disse que ela poderia deitar, assim que eu terminasse de amarrar a rede e fizesse o teste pra ver se a rede estava bem presa, ela então respondeu: “Eu nunca deitei em uma rede”, neste momento me vi pensando inúmeras possibilidades na relação que essa ação –deitar em uma rede- poderia representar para menina.


Foto 2: intervenção República do cochilo. Na praça da República.
           
Salles, abordando o processo de criação artística, relata a fato do acontecimento do imprevisto em uma obra, e por isso a aceitação da possibilidade de esta poder ser realizada de inúmeras formas. Fazendo uma ligação ao fato descrito anteriormente, podemos facilmente considerar os multiformes modos em que a garota faria da rede.
Aceitar a intervenção do imprevisto implica em compreender que o artista poderia ter feito aquela obra de modo diferente daquele que fez. Admite-se, assim, que outras obras teriam sido possíveis. (SALLES, 2011, p.42)

Considerando essas possibilidades, notamos que elas se estendem a todos os momentos de uma intervenção; talvez seja esse um dos fatos pelo qual o olhar, o perceber se modifica, e traz consigo uma inquietude que não termina ali, mas que vez por outra retorna. Nas intervenções, ao estar do lado dos que as propuseram, na intenção de promover situações que pudessem afetar as pessoas no sentido de provocar questionamentos, o que acredito ter sido realizado, me senti, no entanto, durante todo processo, na posição de agente passivo do que ativo, pois a todo momento os acontecimentos me afetavam. E dessa maneira, em se falando de intervenções, acredito na existência de uma ação recíproca, em que as funções de agentes passivos e ativos fazem parte de todos envolvidos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

REY, Sandra. Caminhar; experiência estética, desdobramento virtual.(tradução: Daniela Kern). In revista Porto Arte, Porto Alegre,2010.

SALLES, C. O Gesto Inacabado: Processo de criação artística. São Paulo, Annablume, 3º edição, 2007.

PERFORMANCES E INTERVENÇÕES ARTÍSTICAS NO ESPAÇO URBANO


Viviane Tchalian
Com o intuito de finalizar uma disciplina de Poéticas Contemporâneas: Atrações temporárias, estéticas emergentes na cidade, nos foi proposta uma atividade de intervenção artística no centro de Cuiabá. Já enquanto elencávamos as possíveis localidades, formatos e intenções, era possível sentir certa palpitação no peito. Fato é que ao criar-se uma performance artística em forma de intervenção urbana além de pensar em detalhes próprios da obra, há de se considerar um elemento chave para esse tipo de atividade: o público, e obviamente, sua relação com a obra e o(s)/a(s) artista(s). "Na performance, a presença do espectador é requerida, não como um espectador a posteriori, mas como parte da obra, enquanto elemento estético da obra. (MEDEIROS, 2005 pg.137)

Este processo de criação nos possibilitou reflexões acerca do conceito de performance, sobre a realidade da cidade onde vivemos e sobre a relação que nós mesmas (os) temos com esta cidade. Em qualquer obra de arte, o processo criativo é algo a ser considerado como parte fundamental da obra, algo a ser considerado, inclusive, parte da obra. Sobre isso Cecília Almeida Salles enfatiza, O processo criativo é palco de uma relação densa entre o artista e os meios por ele selecionados, que envolve resistência, flexibilidade e domínio. Isto significa uma troca recíproca de influências. (Salles, 1998 p.72) e, no caso das nossas aulas, esse processo fez-se presente de forma colaborativa, o que, a meu ver, intensificou ainda mais a experiência, pois, ao investigar lugares, analisar fotografias de espaços urbanos que fazem parte do nosso cotidiano, tivemos a oportunidade de pensar tais lugares sob outras óticas, outras formas de pensar, ao agregarmos várias (os) autoras (es) à obra, agregamos vários mundos à ela. Esse processo compartilhado entre colegas de um programa de mestrado multidisciplinar, compreendendo pessoas de diversas áreas de formação, mostrou-se muito rico e produtivo.

SENADINHO: POLÍTICA E UTILIZAÇÃO DO ESPAÇO URBANO.

Ao chegarmos à localidade escolhida nos deparamos com uma pequena reunião de senhores, sentados em cadeiras espalhadas pela calçada, no número 330 na Rua Cândido Mariano, próximo à antiga casa dos governadores, ponto histórico da capital. Esses senhores representam uma tradição bem particular da vida cuiabana. Há trinta anos eles, todos esbanjam histórias sobre uma Cuiabá antiga, diferente, nem melhor nem pior, apenas uma Cuiabá que as gerações mais recentes desconhecem. Eles se reunem de segunda à sexta feira, à partir das 6 horas, para discutir aspectos políticos, cotidianos e particulares da vida na cidade, da situação econômica e, inclusive, algumas fofocas das pessoas conhecidas na capital.  Além da surpresa que foi ver esses senhores que lembram de certo modo nossos avós, um pouco misturados com figuras de livros de história matogrossense, talvez o maoir impacto tenha sido a recepção que tivemos. Ao verem uma pequena multidão de sombrinhas coloridas, esses alegres e falantes senhores se abriram seus sorrisos de boas vindas ao grupo de estudantes que ali chegava.
O nosso grupo logo foi se aconchegando em meios às cadeiras, histórias e pedestres que ali passavam e olhavam, curiosos, aquela atípica reunião que ignorava idade, sexo, religião e posicionamentos políticos. Estávamos todas (os) alí afim de absorver o máximo possível daquele encontro.
Dentre os assuntos que alí apiavam, os mais cotados foram as mudanças atuais ocorridas na cidade, em sua maioria por ser esta uma das sedes da Copa do Mundo, as mudanças no cenário político e as manifestações militantes que também chegaram à Cuiabá. Mais surpreendente que os assuntos em si, foram as reações e opiniões expressadas por aqueles senhores. Todos compartilhavam um certo ânimo ao ver os jovens se movimentando, tentando mudanças efetivas em nossa sociedade. A forma como foram abordadas estas questões me trouxe certa calma e esperança de que seja possível, realmente, um diálogo entre gerações, diálogo esse livre de julgamentos, com o intuito apenas de trocar experiências. E foi isto que vivenciamos juntamente com esse grupo especial de senhores que também se incomodam, revoltam e se indignam com a situação da capital matogrossense e do país.
 
 
 

Essa experiência em arte e, também, na cidade onde vivo há oito anos, me trouxe algumas percepções que me fizeram muito feliz, primeiramente pela possibilidade de troca de experiências com uma geração que tem cerca de cinquenta anos de diferença para com a minha, pertencente a uma cidade que não é minha cidade de origem, foi muito rica. A forma como fui recebid@ foi bastante surpreendente também, imaginei que, por se tratar de senhores de idade avançada, acostumados com alguns valores, haveria certa resistência com relação à minha imagem ( andrógena, moicano, tatuagens, alargadores e piercings), mas ao contrário, fui muito bem recebid@, pude trocar muitas figurinhas e conhecer uma realidade bastante diferente do que conhecia até este encontro.
Concluo assim, que ao utilizarmos dos espaços públicos, cotidianos, ao habitarmos de fato nossa cidade, criamos possiveis encontros, possíveis situações que colocam em destaque a própria cidade, a forma como as pessoas vivem nela e as transformações que se dão ao longo do tempo. Além disso, ao levarmos uma obra de arte, uma performance às ruas, aproximamos universo artístico, acadêmico e a população, enriquecendo assim a vivência nesses espaços.

BIBLIOGRAFIA
MEDEIROS, Maria Beatriz de. Aesthesis: estética, educação e comunidades. Chapecó : Argos 2005.

SALLES, Cecília Almeida. Gesto Inacabado: processo de criação artística. São Paulo : Annablume 1998.

INTERVINDO NA SESTA ALHEIA




Adinil Carlos

A arte contemporânea na sua complexidade nos envolve com suas tão distintas técnicas e extensões, que na maioria das vezes nos traz à tona a ideia do “novo”, talvez pudesse até dizer do “inusitado”.
Por meio de estudos feitos através de leitura de textos, vídeos e discussões, tivemos como objeto de estudo a “intervenção urbana”. Temos por intervenção urbana:

No campo artístico as chamadas "intervenções urbanas" podem ser entendidas como uma vertente da "arte urbana", "ambiental" ou "pública". Como o próprio termo indica, a "intervenção" tem como objetivo principal promover transformações no cotidiano a partir da inserção da arte no espaço público. A interferência do artista num determinado locus urbano muitas vezes convida o público à participação direta mediante estratégias de atuação performática e de apropriação de elementos estéticos preexistentes. (PORTO FILHO; BARBOSA, 2011).

Assim, a intervenção urbana no fato de “convidar o público” a participar, produz uma situação quem tem como o resultado o “imprevisto”. O “criar uma situação” nos remete aos estudos de Guy Debord e da Internacional situacionista (IS). Portanto, o situacionismo tem como base a “construção de situações”.
Como nos esclarece Paola Berenstein “O situacionismo constituiu-se de um grupo de artistas, pensadores e ativistas que lutavam contra a espetacularização das cidades, ou seja, foi contra a não-participação, a alienação e a passividade da sociedade.” Partindo dos estudos acerca deste assunto, criamos uma proposta de intervenção urbana, ou seja, o criar uma situação que interfira no espaço público em Cuiabá. Após um período de observação e votação em sala de aula, optamos pelos locais: Senadinho e Praça da República.
O senadinho é um local onde se reúnem, quase que diariamente, senhores de idade mais avançada, com a proposta de discutir a política e o cotidiano da cidade de Cuiabá. Essa reunião se consolidou de tal maneira que se tornou uma tradição por parte dos participantes. O senadinho nos tornou uma opção interessante pelo fato de termos vivenciado tão recentemente diversas manifestações por parte da população contra as autoridades, e o momento de nos reunirmos com esses senhores se tornou propício.
Através de observações feitas na praça da república, percebemos que se tratava de um local onde a sesta (Sono de curta duração que se dorme geralmente depois da refeição do almoço) era evidenciada. Assim decidimos “criar a república do cochilo”, levando redes, colchões de ar, almofadas, etc.

República do cochilo – Imagem de Adinil Carlos

Após nos reunirmos na Praça Alencastro, fizemos o deslocamento para o Senadinho fazendo uso das sombrinhas, numa forma sugestiva de transmitir a ideia de que precisamos de mais sombras para Cuiabá. O que chamou a atenção de muitos transeuntes.

Deslocamento com sombrinhas – Imagem de Adinil Carlos

Como uma das propostas, ou métodos oriundos do situacionismo, temos a deriva, ou deambulação urbana, que é o caminhar “sem rumo”.

As derivas buscavam sempre um uso situacionista do espaço, ou seja, uma possibilidade de criar experimentações que tornassem o cotidiano urbano - lugar da fragmentação e da banalidade - em um espaço da revelação, da crítica e da transformação. O andar na cidade permitia reconhecer nos edifícios e objetos urbanos funções independentes de seu uso prático racional. (SILVA, 2008)

Como geralmente acontece com os grandes centros das cidades, cada vez mais se apresentam como “lugar de passagem”. As pessoas se dirigem para o centro para trabalhar, fazer compras ou passam pela região apenas como um ponto de caminho para outros lugares. Como experiência particular, nessa atividade artística pude perceber o quanto isso é relevante e significativo. A região onde escolhemos para intervir foi para mim, por um tempo considerável, apenas uma região de passagem. Quando pude contemplá-la por outro olhar, por um instante me pareceu que eu estivesse até mesmo em outra cidade, que não fosse Cuiabá. Isto se evidencia no relato de Silva:

Poucos são aqueles que passeiam pelo Centro ou caminham nesta região dando maior atenção às suas características e particularidades. A dimensão do centro como espaço público, como espaço de encontro, de reunião e de convívio social fica assim despercebido. (SILVA, 2008).

Temos então a cidade como um “organismo” e as pessoas como um fluxo nesse organismo. Em determinados momentos podemos perceber certa movimentação de um público específico como, os trabalhadores do comércio, guardas, garis, e em dado momento constatamos um fluxo de outra classe de pessoas, moradores de rua, andarilhos, etc. E esses fluxos são rotineiros, de grande previsibilidade.
Este “movimento” rotineiro da cidade, com esses fluxos constantes, se confirmou em nossa atividade artística. Tamanha é a previsibilidade que, nos dirigimos para o primeiro local, o senadinho, convictos de que encontraríamos ali os seus “membros”.
Por outro lado, a nossa visita se tratou de algo totalmente inusitado, por parte dos membros do senadinho, que nos receberam com entusiasmo e curiosidade. Como dito, o senadinho reúne senhores idosos com a proposta de discutir a política e o cotidiano da cidade de Cuiabá. Apesar de não terem poder efetivo para governar a cidade, alguns já ocuparam tal posto, como o de vice-prefeito. De acordo com a fala, de caráter cômico, de um dos senhores: “(...) Aqui no senadinho nós discutimos sobre tudo e não resolvemos nada”.
Apesar de não se tratar de uma instituição oficial, percebe-se uma ordem que remete a tal, como por exemplo, quando um membro se propõe a fazer um discurso, este é apresentado com antecedência por outro membro. Outra semelhança com uma instituição oficial, é que os participantes do senadinho tomam as demandas da população e a levam a sério, isto se evidenciou quando uma senhora reclamou da ocupação indevida da calçada e um dos membros apoiou com firmeza.

Senadinho – imagem de Adinil Carlos

Deslocamos para a praça da república, para a segunda etapa da intervenção urbana que propusemos. À medida que fomos preparando o local, inflando colchões de ar, amarrando redes, e colocando almofadas, varais, etc., os olhares atentos das pessoas se voltaram para o “movimento”, alguns com receio apenas observavam, enquanto outros interagiam de maneira mais pragmática.
Temos, nesse ano de 2013, vivenciado vários episódios de manifestações populares contra o governo, isso ressoou também em nossa intervenção. Durante a experiência, certo cidadão após ler o cartaz “República do sono” indagou: “(...) É um manifesto? Vocês estão querendo dizer que as autoridades estão dormindo?” Apesar de não se tratar de nossa meta, a proposta de escrever em cartazes reivindicações, pode por vezes sugerir isto.
O fluxo de diferentes tipos de pessoas marcou também esta experiência, houve momentos em que na praça prevaleceram alunos, ora trabalhadores do comércio, e ora moradores de rua. A princípio surgiu o questionamento se alguém teria coragem de deitar na praça, mas logo se percebeu que este receio não tinha tanto peso assim, e que as pessoas, principalmente quando estão em grupos ousam mais.

Funcionários do comércio – Imagem de Adinil Carlos
 
Na maior parte do tempo, tivemos contato com moradores de rua, homens que estão “fora de sintonia” da correria do dia-a-dia dos demais. Tais homens podem ser referidos como “homens lentos”, uma expressão cunhada por Milton Santos. A respeito destes, ele afirma:

Durante séculos, acreditáramos que os homens mais velozes detinham a inteligência do Mundo. A literatura que glorifica a potência incluiu a velocidade como essa força mágica que permitiu à Europa civilizar-se primeiro e empurrar, depois, a "sua" civilização para o resto do mundo 132. Agora, estamos descobrindo que, nas cidades, o tempo que comanda, ou vai comandar, é o tempo dos homens lentos. Na grande cidade, hoje, o que se dá é tudo ao contrário. A força é dos "lentos" e não dos que detém a velocidade [...]. Quem, na cidade, tem mobilidade - e pode percorrê-la e esquadrinhá-la - acaba por ver pouco, da cidade e do mundo. (SANTOS, 2006, p.220)

A experiência constituiu-se de grande valor para mim devido ao fato de se tratar de algo novo, não tão voltado para a minha área de atuação, que é a música. Através desta, pude notar a tamanha significância que consiste no fato de olhar a cidade por outra perspectiva e a necessidade de refrear a rotineira correria para atentar para fatos que só podem ser percebidos quando se separa um tempo específico para contemplação.



REFERÊNCIAS

BARBOSA, Eduardo Romero Lopes; PORTO FILHO, Gentil. A Técnica do Détournement no Espaço Urbano: intervenções artísticas de Marcelo Cidade e Gabriel e Tiago Primo.

JAQUES, P.B. Urbanismo à deriva: o pensamento crítico situacionista.

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 4°ed. 2° reimpressão. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006.

SILVA, Regina Helena da. Cartografias Urbanas: construindo uma metodologia de apreensão dos usos e apropriações dos espaços da cidade. Visões Urbanas - Cadernos PPG-AU/FAUFBA, Vol. V, Número Especial, 2008.

O CORPO COMO TEMA E MEIO DE EXPERIÊNCIA



                                                                                  Daniela Leite
No dia 5 de julho de 2013 propomos instaurar a República do Cochilo, intervenção urbana desenvolvida na disciplina Tópicos Especiais em Poéticas Contemporâneas II, ministrada pela Professora Doutora Maria Thereza Azevedo, no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea da UFMT. Esse processo iniciou com a proposta de uma situação previamente combinada de preencher a praça com colchões, redes, puffs e cadeiras, bem como uma “banca do desabafo” onde as pessoas poderiam escrever em papéis e pendurar em varais aquilo que lhes ocorriam ou angustiavam naquele momento. Por ali passamos 8 horas disponíveis aos encontros que aconteceriam no decorrer do dia na Praça da República, centro de Cuiabá.
 O que me interessa, dentre tantas possibilidades, é pensar aspectos do encontro como experiência e como isso reverbera no corpo. Como sugere o filósofo John Dewey (1959), caso a existência mantivesse seu perfeito equilíbrio, frente à experiência do indivíduo, ele não teria o que investigar, o que indagar e, consequentemente, o que conhecer. No máximo, operaria um re-conhecer constante das coisas do mundo.
Por conseguinte, Dewey defende que toda experiência autêntica, o que ele vai chamar de “uma experiência”, têm caráter estético. Sendo a vida constituída de interações (“viver é interagir”) e que é no seio das interações que ocorrem as experiências, existe a possibilidade de que a vida esteja também repleta de apreciação perceptiva e agradável, ou seja, de experiência estética.
Nesse sentido, o antropólogo Victor Turner em Do Ritual ao Teatro, entrelaça diferentes linhas etimológicas do vocábulo “experiência” e esclarece: “(...) etimologicamente, a palavra inclui os sentidos e riscos, perigo, prova, aprendizagem por tentativa, rito de passagem”. Ou seja, uma experiência, por definição, determina um antes e um depois, corpo pré e corpo pós-experiência. Uma experiência é necessariamente transformadora, ou seja, um momento de trânsito da forma, literalmente, uma trans-forma. E, assim, as escalas de transformação são evidentemente variadas e relativas, pois oscilam entre um sopro e um renascimento.
É através dessas lentes que proponho olhar para essa intervenção. Guy Debord (1961), acredita que a vida cotidiana está organizada dentro dos limites de uma pobreza ruidosa. E, sobretudo, porque essa pobreza da vida cotidiana não tem nada de acidental: o uso da vida cotidiana, no sentido de um consumo do tempo vivido está condenado pelo reino da carência de tempo livre; e carência dos possíveis usos deste tempo livre.
Para Suely Rolnik (1997), a arte contemporânea leva cada vez mais a considerar e valorizar o processo, ou seja, aquilo que acontece com (e no) artista em seu diálogo com o mundo, afirmando a ideia de técnicas que não estão a serviço da construção ou criação de um objeto e, sim, técnicas do sujeito, ou melhor, técnicas do si mesmo. Eis que surge uma questão: será que o artista, ao mergulhar em processos de criação, não está embarcando em um profundo processo de autoconhecimento, no qual a técnica revela-se justamente como construção de novas subjetividades?
Trata-se do autoconhecimento enquanto técnica, mas que não deve, nem se pode ficar ensimesmado, pois deve ocorrer em relação ao mundo. A maneira através da qual o artista encaminha seu oficio, é, de fato, como ele encaminha sua existência. Se no pensamento cartesiano a técnica estava fora, como um objeto, hoje ela é a própria pessoa, a própria existência.
Nesse caso, é necessário pensar como o corpo é inserido na existência já que o “corpo” é tema e é meio. Assim, faz-se necessário perguntar: o que é corpo? Uma resposta dentre muitas aponta Gilles Deleuze (2002) em Baruch Espinosa, o qual define corpo de duas maneiras simultâneas: Primeira Proposição: Um corpo é um grupo infinito de partículas relacionando-se por paragem e movimento. São as diferentes velocidades relacionais entre as partículas, que definem as particularidades de cada corpo. Portanto, o corpo não é definido por sua forma ou função. Forma e funções orgânicas dependem de arranjos de velocidades e ralentações e não vice-versa. Vale ressaltar que o corpo não está sendo aqui compreendido em termos de forma, mas de forças interativas, como uma complexa relação entre diversas velocidades, como uma elaborada interação entre partículas infinitas.
Então, corpo é movimento e mobilidade. Segunda Proposição Espinosiana: o quê move o corpo ou qual o princípio energético do corpo? Um corpo tem o poder de afetar e ser afetado. Esta capacidade determinante também define as particularidades do corpo: o quê ele afeta e como afeta, e pelo quê ele é afetado e como é afetado. Nesse sentido, Espinosa não define corpo por sua forma ou função, nem como substância ou sujeito. Corpos são vias, meios. Essas vias e meios são as maneiras como o corpo é capaz de afetar e de ser afetado. O corpo é definido pelos afetos que é capaz de gerar, gerir, receber e trocar.
Por isso, Espinosa propõe que um corpo não é separável de suas relações com o mundo, posto que é exatamente uma entidade relacional. O corpo espinosiano não está, e nunca estará, completamente formado, posto que é permanentemente informado pelo mundo, ou, parte de mundo que é. Inacabado, ou ainda, inacabável, provisório, parcial, participante – está, incessantemente, não apenas se transformando, mas sendo gerado. Tenho particular interesse na resposta espinosiana pelo grau de abstração e a amplitude daí decorrente.
É com esse corpo espinosiano que quero pensar os encontros que aconteceram na praça; nesse corpo que está disponível para afetar e ser afetado para criar zonas de micro elementos virtuais em relação dinâmica instável: atingir o encontro por outro canal, procurar uma comunicação mais profunda. Como diz José Gil:
Deixar-se “invadir”, “impregnar” pelo corpo significa principalmente entrar na zona das pequenas percepções. A consciência vígil, clara e distinta, a consciência intencional que visa o sentido do mundo e que delimita um campo de luz, deixa de ser pregnantes em proveito das pequenas percepções e do seu movimento crepuscular (GIL, 2004, 130).
Atingir essa zona de turbulência, salientada por Ferracini (2007) no que se refere ao espaço-tempo elementar, cujo tempo-espaço tornam-se virtuais aiônicos e paradoxais de Escher. É necessário lembrar que um dos temas recorrentes da obra de Escher é a sobreposição de vários espaços sobre uma mesma imagem. Paradoxalmente, somos convidados a ver dois mundos diferentes num único lugar e ao mesmo tempo. Desse modo, Escher consegue juntar numa mesma imagem dois planos, e por vezes três, de forma tão natural que o observador é levado a acreditar que essa imagem é possível, que é possível abarcar dois ou três mundos ao mesmo tempo.
Os encontros inusitados que aconteceram durante as 8 horas de experiência estética na Praça da República não se localiza somente no meu corpo muscular, ou somente na presença ou ausência dos signos que o meu corpo produziu, ou mesmo, apenas na imaginação ou capacidade semiótica do outro. O encontro está na relação dinâmica “entre” todos esses espaços e zonas. O encontro não é produção, mas (in)produção, diluição, capacidade que esse corpo possui em se lançar, ele mesmo e os outros, em zonas de contágio e turbulência, criando e gerando encontros nessa zona virtual e intensiva.


Bibliografia
DEBORD, Guy. Perspectivas da transformação consciente da vida quotidiana. 1961. DEWEY, J. Reconstrução em filosofia. Tradução de Antonio Pinto de Carvalho. São Paulo: Nacional, 1959.
DELEUZE, Gilles. Espinosa, filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002
FERRACINI, Renato. O corpo-subjétil e as micropercepções: um espaço-tempo elementar. Tempo e Performance. Brasília: Capes, p. 111-120, 2007.
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