terça-feira, 30 de julho de 2013

Por uma “República do Cochilo"



Elisana Alves da Silva



A ideia de realizar algumas práticas e atividades a exemplo da deriva e da intervenção surgiu a partir das leituras realizadas em sala, a exemplo de Paola Berenstein Jackes em seu texto Urbanismo à deriva: o pensamento crítico situacionista, Sandra Rey em Caminhar: experiência estética, desdobramento virtual; Guy Debord em sua Teoria da Deriva e também de Regina Helena Alves da Silva, com seu Cartografias Urbanas: construindo uma metodologia de apreensão dos usos e apropriações dos espaços da cidade seguindo a metodologia, dentre outros autores.
Discutir a cidade está entre um dos temas de nossa contemporaneidade. É possível pensar que a arte que surge no contexto da cidade e não fora dela, pode ser considerada temporária, uma vez que são efêmeras e escapam em algum momento. Nesse sentido, é necessário um processo de conhecimento para se pensar sobre a cidade e aquilo que ela contém para além de uma visão de senso comum. Pode-se iniciar com a pergunta carregada de provocação e que já foi lançada logo no inicio das atividades da disciplina pela professora Maria Thereza Azevedo: até que ponto nós vivemos a sociedade do espetáculo?
Trata-se de uma pergunta difícil de responder, entretanto, pode-se buscar caminhos que possam levar - se não até a sua resposta, ao menos até a sua compreensão, a partir de leituras e reflexões sobre algumas das propostas da Internacional Situacionista e alguns de seus representantes.
A Internacional Situacionista, segundo Berenstein, era composta por “artistas, pensadores e ativistas situacionistas - lutava contra o espetáculo, a cultura espetacular e a espetacularização em geral, ou seja, contra a não-participação, a alienação e a passividade da sociedade (…)” (Jacques, 2003, p.01 ) Este grupo possuía em comum posicionamentos nos quais rechaçavam dentre outros, o afastamento e o alheamento apresentado pela sociedade em relação a cidade. Ofereciam como antídoto a participação efetiva e verdadeira dos indivíduos, de modo que o cerne de sua proposta era a participação dos cidadãos na construção das cidades.
A própria cidade é um espetáculo (pode-se incluir aqui os excessos, a teatralização, no sentido pejorativo da palavra), sua organização demonstra a categorização, bem como, as divisões que seus espaços possuem. Cada lugar com seu habitante e sua atividade respectiva. Áreas pré-definidas e pensadas para o público que ali deverá se alojar.
De acordo com Jacques,
 “os situacionistas, ficaram sempre a favor das cidades, ou seja, eram contra o monopólio urbano dos urbanistas e planejadores em geral, e a favor de uma construção realmente coletiva das cidades (…) Qualquer construção dependeria da participação ativa dos cidadãos, o que só seria possível através de uma verdadeira revolução da vida cotidiana (…) pretendiam usar o urbano em geral para induzir a participação, para contribuir nessa revolução da vida cotidiana contra a alienação e passividade da sociedade” (JACQUES, 2003, p. 04)

Dessa forma, torna-se interessante conceituar termos como psicogeografia, deriva, caminhada. É possível afirmar a partir de Berenstein que os situacionistas instituíram um procedimento ou método, denominado psicogeografia e também uma prática ou técnica que seria a deriva e ambos estavam diretamente relacionados, ou seja, “(…) a deriva era o exercício prático da psicogeografia, e além de ser também uma nova forma de apreensão do espaço urbano (…)” (JACQUES, 2003:06).
Segundo Silva, para Jacques (2003, p. 22) “a deriva seria uma apropriação do espaço urbano pelo pedestre através do andar sem rumo” o autor ainda conceitua a psicogeografia que seria “definida como um ‘estudo dos efeitos exatos do meio geográfico, conscientemente planejado ou não, que agem diretamente sobre o comportamento afetivo dos indivíduos”
Nesse sentido, podemos observar que o autor situacionista Guy Debord também faz menção ao termo ao definir a deriva,
O conceito de deriva está ligado indissoluvelmente ao reconhecimento de efeitos da natureza psicogeográfica, e à afirmação de um comportamento lúdico-construtivo, o que se opõe em todos os aspectos às noções clássicas de viagem e passeio”. (DEBORD, 1958, p. 01)

Percebe-se então que estas práticas possuem em comum gestos que normalmente são banalizados e vistos como algo sem importância alguma, no cotidiano das pessoas. Ao invés de se referir a locais através de nomes, números, ou dados geográficos dispostos em índices, mapas e catálogos, a psicogeografia propunha uma forma diferenciada, de modo que a mesma, “seria uma geografia afetiva, subjetiva, que buscava cartografar as diferentes ambiências psíquicas provocadas pelas deambulações urbanas que eram as derivas situacionistas” segundo Berenstein.
Para se realizar uma deriva é necessário que se esqueçam as preocupações rotineiras que nos acometem, a exemplo do trabalho, ou seja, conforme Debord (1958, p. 01) é imprescindível “deixar-se levar pelas solicitações do terreno e os encontros que a ele corresponde”.
Ver, perceber e sentir a cidade são apenas alguns dos elementos que podemos vivenciar ao realizar uma deriva. A prática desta experiência para os situacionistas envolvia também “explorar o espaço e suas possibilidades contrapondo-se à passividade diante dos usos pré-definidos, decorrentes da estruturação capitalista da cidade” (SILVA, 2008, p. 05).
Sobre a caminhada, encontramos em Rey (2010) o seu conceito e a mesma esclarece que,
O ato de caminhar foi largamente experimentado durante as primeiras décadas do século XX: em um primeiro momento, enquanto forma de antiarte, depois, enquanto ato primário de transformação simbólica do território e, posteriormente, como uma forma de arte autônoma. (REY, 2010, p. 109)

Realizar (ou ao menos tentar) a deriva, a caminhada, tornou-se uma experiência única e reveladora, uma vez que, foi possível perceber pontos que muitas vezes se encontram invisíveis ou invisibilizados, seja pela maneira como vivenciamos o espaço ou também devido aos compromissos cotidianos que exige de todos o uso de uma espécie de “filtro” nos olhares para se ver apenas aquilo que seja considerado ‘importante’ ou necessário.




A intervenção como experiência vivenciada e inédita: (des) construção de percepções

A escolha do local realizou-se de forma democrática, com sugestões dos alunos seguida da realização de uma deriva com a finalidade de observar, perceber, visualizar e sentir o espaço para em seguida relatar para a turma as impressões absorvidas durante e experiência.
Duas praças localizadas no centro da cidade foram os locais escolhidos, tratam-se das praças Alencastro e República, os critérios de escolha se valeram de particularidades presentes em cada uma delas. Dotadas de importância histórica, cada uma delas contribui com a capital não apenas pela sua beleza ou valor histórico. O exercício proposto aqui requer alguns cuidados, segundo Silva, a proposta pode ser de,
Um encontro de especial subjetividade com a cidade: olhá-la como cidade vivida, interiorizada e projetada por grupos sociais que a habitam e com suas relações de uso que não só a percorrem como também interferem nas formas de circulação e nos sentidos determinados de fluxos, criando outros e redirecionando-os. (SILVA, 2008:03)

Conhecida anteriormente como largo do Palácio, a Praça Alencastro abriga a sede da prefeitura e além de bem frequentada pela população que em geral a utiliza como espaço de passagem, devido aos inúmeros pontos de parada de circulares que cobrem a cidade e também abriga o Senadinho, composto de senhores aposentados, que discutem atualidades e assuntos de maior repercussão no cenário político e econômico de Mato Grosso e do país. Alguns destes senhores já ocuparam cargos políticos e ainda possuem filhos, sobrinhos ou netos atuando em diversos setores da política cuiabana e mato-grossense.
Sobre a Praça da República, a mesma está situada em frente a igreja matriz e dessa forma também ficou conhecida como Largo da Matriz, neste espaço ocorreram importantes acontecimentos religiosos, políticos ou culturais do estado de Mato Grosso. Nela se encontra o prédio do Museu Histórico de MT, e também as Estátuas das Estações: primavera, verão, outono e inverno  distribuídas nos seus quatro cantos e que ficaram famosas por representar um período de ‘modernidade’ na capital.
Os dados e informações mencionados anteriormente referem-se a um olhar sob uma perspectiva histórica do espaço, trata-se de um primeiro olhar, entretanto, ao se propor uma atividade como a deriva ou a caminhada, a perspectiva muda, quebram-se e (des) constroem-se os olhares e as percepções, algo novo surge na apreensão destes espaços. Pessoas que foram (em um outro momento), invisibilizadas, pela pressa, pelo medo e por outras sensações e sentimentos, surgem e aparecem para interagir e se fazerem presentes. As pessoas anônimas que cruzam e ocupam estes espaços recebem novos e outros tons, escapando-se do superficial e distante, para uma aproximação mais imediata.
Neste ponto chega-se ao que mais marcou durante a atividade vivenciada. O ineditismo da experiência, o contato com a construção de percepções ainda não experimentadas, o novo, a tentativa de uma não expectativa, de envolvimento que para alguns pode ter parecido mínimo. Pode-se elencar aqui a necessidade de um roteiro (embora esta ação tenha sido planejada coletivamente e anteriormente), de um acontecimento que marcasse de forma efetiva o exercício para que desse modo ganha-se contornos palpáveis. A experiência transformou o olhar de meros transeuntes e marcou o espectador que em um dado momento não se contenta mais em apenas observar, mas necessita interagir e se fazer notar.
Tal como ocorre com a Praça Alencastro esta também é um espaço de passagem, utilizado como ponto de comércio, taxistas a espera de corridas, lanches, artesanato, bancas de revistas e jornais, de ponto de encontro de estudantes ou não, de descanso, para quem faz suas compras pelo centro da cidade ou ainda para quem trabalha no comercio local e não pode voltar para casa no horário de almoço ou serve  ainda de lugar de apoio para moradores de rua que por ali transitam. De acordo com Silva,
O centro é cada vez mais visto como local de passagem/transito, ou seja, “As pessoas “descem” para a cidade -o centro- (…) Poucos são aqueles que passeiam pelo Centro ou caminham nesta região dando maior atenção às suas características e particularidades. A dimensão do centro como espaço público, como espaço de encontro, de reunião e de convívio social fica assim despercebido” (SILVA, 2008, p.01)

A apropriação e a (re) significação dada pelas pessoas a esta praça especificamente chamou a atenção, visto que no horário de almoço, entre 11h e 14h, a mesma tem seu fluxo de transeuntes duplicado, mas que contem uma diferença: São pessoas que substituem a pressa – apresentada logo no início da manhã, por pessoas atrasadas para o trabalho, a escola ou outro compromisso com horário marcado – pela ausência da mesma, estas pessoas ficam e ocupam bancos, muretas, ou qualquer outro local que permita sentar-se e que estejam preferencialmente com uma boa sombra, para dessa forma ‘descansar’ por algumas horas ou minutos. Para Silva trata-se de “Um lugar que transcende sua estrutura física, suportando também um emaranhado de significados em fluxo”. (SILVA, 2008:02).
Um público diverso se reúne neste espaço, embora, permaneçam em seus respectivos grupos e em comum seja possível pensar que todos compartilham um espaço, mas cada um se apropria dele de formas e maneiras diferentes.
Escolhidos os locais, a data, o horário e demais procedimentos, faltava ainda nomear a intervenção, que foi batizada como “República do Cochilo”. Logo no final da manhã, o espaço central da praça foi ocupado por varais com pinturas, e ainda puffs, colchões infláveis que ficaram espalhados em locais com boa sombra, acompanhados de revistas de assuntos diversos e alguns livros da literatura infantil, uma vez que a presença de crianças fora notada anteriormente junto as suas mães ou responsáveis. Embaixo das árvores foram ‘armadas’ redes para quem quisesse se refrescar do calor inclemente, típico do clima cuiabano, ainda que por um breve momento.
Conforme a proposta situacionista, ao se criar uma intervenção urbana ou performance na cidade deve-se provocar, através da criação de situações a reação das pessoas. Desse modo, é possível criar desvios e também situações que permitam sair da rota, a partir do próprio espaço urbano.
Sobre isso, inicialmente observou-se as pessoas que por ali passavam, olhavam curiosas e em seus semblantes era possível perceber a interrogação sobre o que estaria acontecendo, alguns demonstravam desconfiança, outros ainda deixavam transparecer o desprezo para com o que poderia ser interpretado como ‘perda de tempo’. Outras paravam para fazer as mais diferentes e inusitadas perguntas, carregadas de suas interpretações e subjetividades e havia ainda aquelas que se prontificavam em estabelecer algum diálogo ou apenas aproximar-se e aproveitar para uma soneca nas redes ou colchões.
Assim, a experiência mostrou-se interessante e estimulante para aqueles que dela tomaram parte, cada um apreendeu os diversos momentos de formas especificas e individuais, dando lhe tons pessoais e únicos. O movimento situacionista inaugurado e vigente em um passado nem tão distante, mostrou que é importante pensar e retomar a preocupação com a cidade, uma vez que “sua crítica ao urbanismo enquanto disciplina, poderia ser visto hoje, pelo próprio ‘campo’ do urbanismo, como um convite à reflexão, à auto-crítica e ao debate. Uma proposta para se pensar agora, em conjunto com todos os atores sociais urbanos, sobre o futuro das cidades existentes e a construção das cidades do futuro”.




REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COCCHIARALE. A (outra) Arte Contemporânea Brasileira: intervenções urbanas micropolíticas. Revista do programa de pós-graduação em artes visuais EBA UFRJ: 2004
DEBORD, Guy. Teoria da deriva. Texto publicado no nº. 2 da revista Internacional Situacionista em dezembro de 1958.
JACQUES, Paola Berenstein. Apologia da deriva: escritos situacionistas sobre a cidade. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.
KAPROW, Allan. Performance e colaboração: estratégias para abraçar a vida como potência criativa. Campinas, SP: [s.n.], 2009
REY, Sandra. Caminhar: experiência estética, desdobramento digital Revista Porto Arte: Porto Alegre, V. 17, Nº 29, Novembro /2010.
SILVA, Regina Helena Alves. Cartografias Urbanas: construindo uma metodologia de apreensão dos usos e apropriações dos espaços da cidade. Visões urbanas – Cadernos PPG-AU/FAUFBA Vol. V – Número Especial – 2008.

Nenhum comentário:

Postar um comentário